sábado, 4 de setembro de 2010
A cidade soa. Só a cidade. Só.
Grande, desengonçada.
Ela cheira mal.
Lembro-me de quando eu era pequeno e não conseguia ver o sol entre os tapumes.
Mão com a mãe. Mãe com o pai. Atravessar a rua e ralar minhas solas nos asfalto por não acompanhar os passos.
E eu não comprava meus sapatos.
A cidade tosse.
Ela não suporta a fumaça que expiro de meus pulmões rasgados.
Ela é preta.
Mas não tenho preconceito, não. Tenho não.
Escrevo os nomes dos dias no branco da faixa de segurança.
Depois o esgoto passa por cima e lava.
A cidade fecha os olhos. Ela não suporta as luzes que aquecem meu corpo.
Eu tusso.
De cima dos meus andares eu tusso pra ela admirar tamanha altura.
Arranco dos céus alguma bebida barata.
E recolho a cidade ébria escondida em qualquer destas minhas sarjetas.
O sinal é verde.
O sinal é. Vede!
- O sangue é vermelho!
Vermelho que não pára, não faz parar.
Não pára de derramar.
E quando a vista alcança o fim, ficam minhas colinas.
Revivo meu horizonte pra cidade olhar.
Pra cidade chorar.
E derramar um mar escuro que não se abre com o elevar de minha mão.
A cidade vive em mim.
Mesmo nos dias em que eu me sinto só.
domingo, 15 de agosto de 2010
Obnubilação
E então? Sobraram as pirraças e copos coloridos pra eu contar histórias de ninguém... Ficaram os parênteses... Ou seriam daqueles homens lá fora?! Ou seriam dos que sorriem entre aspas? Eu hoje quis chorar... Mas não conta, é segredo. Quis esconder por trás dos meus óculos enquanto a escuridão e o som bonito faziam de mim alguém mais longe. Passou... Passou em branco. Cor branca. Mas branco não é cor. Branco é ausência de cor com todas juntas. De fato... Quando tudo brilha ao mesmo tempo, é o branco que fica. Estou em branco. Meu olho é preto. A enxurrada de brilhos e soles arranca-me os princípios e as milhões de faces que tomo são pra fugir dos raios.
Eu fecho os olhos numa noite fria de domingo...
Agora vou ficar esperando a sensação quase mascava de escrever de trás pra frente. “Assim bem era não que, ficaram que curiosos poucos aos mostrei então. Cores as ouvir podia eu.” Mais um pouco e finalmente escreverei antes que o pensamento insulte revelar.
Céus! Preciso recolher minha boca amarga, lavar meus dentes, alisar os lençóis e zerar meu cérebro... Que amanhã preciso estar normal. Grito mais alto que todos, efim: - zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
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zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...
terça-feira, 27 de julho de 2010
Ano par
Dois minutos e fazia-se a platéia de pequenos sujesmundos prontos pra receber presente. Prontos pra transformar os minutos de som esbandalhado em festa. Festa naquele lamaçal putrefando sobre o sol menino que rasgava a cerração.
Mazinho era filho de Zuleica. Zuleia era mãe de Preto, Bolacha, Lambari e tantos outros que se “enformigavam” sobre a ferrugem esbulhada da Kombi. Zuleica era filha de Vovó. Edvaldo era filho de Maria Jaqueline. Mas agora era filho de um número: 34 + tecla verde.
E era ano de Copa.
Era ano de votar.
Ano par.
Mazinho, Maranhãozinho menino levado, danado que só ele. Vestia camisa, assoprava vuvuzela e chutava pro gol.
Ele queria bola.
Zuleica queria comida.
Vovó queria sossego.
Edvaldo queria voto.
E quem queria colégio?
Calçada, esgoto...?
Casa?
Doutor?
Mazinho queria Copa do Mundo...
Queria brincar.
Queria não ter tempo de passar fome.
E todos queriam TV...
A TV ficara ligada sob o sol marmanjo que rachou de tarde. Os olhinhos brancos e a pele preta de Mazinho brilhavam sem igual.
Sonho de fazer gol... Pronto... Agora Mazinho queria mais.
Mazinho queria ser africano.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Mais açúcar, menos sal
Bebo dois goles sem açúcar pra segurar a ansiedade e não perguntar por primeiro... Então tu começas a falar sobre as notas dos jornais e por ai se vai meu café já doce. Eu ia te dizer que era assim, que não precisava fingir ou engolir as dúvidas... E ai tu adoça o chá com uma colher e meia, levanta a cabeça como querendo chamar o garçom... E te esqueces que aqui não deixam fumar... Ah, o nosso eterno canto com cheiro de brechó... Parecemos tão atrapalhados com a mesa entre nós, mas já é assim há tanto tempo... Sobra um momento e então começas a perceber que o sutiã chateia por baixo do suéter rosa enquanto junta os braços fingindo estar com frio. Em seguida reclama do chá muito quente, da música que não é mais a mesma. O facho de luz certeiro pela janela ilumina os guardanapos... E eu me lembro de quando te enfurecia com teus pais e vinhas desabafar entre minhas mãos. Tapavas o sol com a mão tão alva... E de novo olho pra os guardanapos. Achavas que irias fracassar, que tudo, tudo conspirava... Que não conhecia amor próprio, que eras a causa maior pela perda dos anseios... Impaciência... Hoje uma mulher sorridente-ansiosa em minha frente... Sutil, tudo muito sutil. Deixavas de acreditar que eras cruel... Passaste a beber chá e a olhar nos olhos. E deixar os raios de sol dançarem sem sequer dançar os dedos. E teus dedos hoje são amarelos. Contrastam com o cinza esfumaçado da tua arcada dentária... Aí eu deixo de perguntar... Hoje não preciso dizer que tudo vai passar sobre os nossos olhos e eu vou olhar pra trás com minha boca estrebuchada de perguntas. Assim eu fico nesse papo-furado, rasgado pela mera aparência e meu olhar casual para o relógio. Sim, eu preciso ir. E finalmente degusto de meu café doce pra que desçam as perguntas. Engulo meu gole de ansiedade, cuspo pra dentro o café. Era sal e não açúcar. Tão salgado como ter de beijar-te ao rosto e tomar o rumo pra casa fingindo compromisso.
PS: Um texto menor pros amigos vanguardistas não acharem que meus escritos morreram
domingo, 28 de março de 2010
Culpa sem culpa
Quem dera eu te provar que nesta noite errei sem culpa.
Quem dera eu errar sem provas... Sem álibi, sem riscos
E eu o fiz.
Mas as provas tatuam os miolos e por aí já vão minhas noites de sono
Reviravoltas e empunhaduras pelo leito em febre
Da culpa que eu insisto provar abstenção
Mas as ações alçam vôos e derrubam torres tão longes que nem consigo contar as arranhaduras entre os tijolos.
Uma tarde, uma madruga e talvez amanhã de manhã para pensar.
Os papéis sobre a mesa, as contas por terminar...
Facas de pontas viradas ao peito.
Tudo tão comum nessa manhã de trabalho...
O telefone toca e mais uma vez anulam-se os meus passos.
As mãos se arrastam desdobrando os dedos para cima e para baixo.
E eu os controlo com suor morno.
Ouço a voz de fora e tudo volta ao normal.
Até os 5 minutos depois das 14 horas racionais.
É o inferno em ciclos, meu riado-mudo.
E o diabo gospe o pecado.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Das memórias de ontem.
Parei de escrever... As mãos se enrijeceram, a cabeça se ocupa de outras coisas agora. E eu até parei de beber conhaque há uns dois meses. Também, estas bebidas baratas me põem com uma dor de cabeça dos diabos. Vai Deus saber o que põem ali dentro... Lembro da vovó gritando pelos corredores da sua velha casa no alto da serra quando eu ficava acamado, mal da garganta... “- Per mal di gola, niente di meglio di zenzero”. Passei a ser um consumidor assíduo de gengibre. Mais tarde, quando descobri o conhaque de gengibre, definitivamente achei a minha bebida. Nunca mais me ataquei forte da garganta como quando eu costumava trepar em sinamomo sob chuva de primavera. De quando eu era fininho, pescoço comprido e de joelhos saltados, bebedor de chá. Duas doses de conhaque por dia. Cinco nos dias de festa em que também tomava cerveja.
Pois bem, agora essa imundície macera meus miolos. Enchem as garrafas com químicos e produtos pra deixar a gente doente. Eu também não costumo reclamar... Peço logo pra Georgina trazer-me algumas aspirinas e tudo melhora. Sempre digo, os melhores remédios são os antigos e não vivo sem minhas aspirinas. Afina o sangue... E freia os males do coração. Não, não é desses males de ficar chorando pelos cantos por mulher... Estes eu não conheço mais. Digo das doenças da bomba mesmo... Podem perguntar ao meu sobrinho-neto que está para se formar médico na capital. Entendido o guri... Serve pra coisa, sempre disse isto a ele. Quando ele vem aqui, me faz um bem... Passa por horas conversando e olhando as receitas dos meus remédios. Acho que os médicos de hoje em dia não sabem falar com a gente. Baixam a cabeça, escrevem adoidados. E correm pra terminar a consulta. Meu sobrinho-neto prometeu-me que não seria assim...
Tanto sei que ele vai me curar... A tosse vai parar e as minhas mãos obedecerão aos comandos de novo... Mas mesmo assim, vou parar de escrever... Por que todos virão aqui e não estarei mais em meu leito... E poderei falar... E poderei ouvir... E não precisarei mais de papel para mitigar a solidão. Irei vestir a camisa xadrez de tom azulado, aparar os poucos cabelos que me restam, restaurar o perfume da última gaveta de minha cômoda acinzentada. Dar um jantar como nos tempos do clube de cronistas. Por enquanto espero... A fim de que as memórias de hoje não sejam mais as de ontem. Eu não escreverei amanhã.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Um brinde à calçada
Esta noite, eu queria que a música fosse repetida por minha vontade. Queria que os livros fossem tragados como os cigarros. E que ali do lado, não houvesse apenas uma janela com vidros foscos esperando que eu os quebre em represália. Onde se escolhe a liberdade, oh céus?! Responde agora se alguém se esconde no azul de minha infância... Hoje não há azul nem estrelas para responder. Volans sumiu entre as nuvens nesta noite de chuva sem cheiro de chuva. A porta fica fechada, mandei dizer que não atenderia a mais ninguém. Ninguém... Cansei dessas diferenças forjadas, cansei de arrastar na escrivaninha e derrubar mil vezes os papéis. E depois arrumar tudo de novo, como se a solução fosse ordenar folhas por datas. Queria que nesta noite os vizinhos reclamassem dos meus gritos pela orgia de mim mesmo. E se esquecessem que teriam de lucrar amanhã de manhã, que não lessem os jornais e que vomitassem o café pela janela. E apagassem as chamadas perdidas de ontem para não se lembrar do passado. Por que tão vida normal? Por que não um pouco dos Buendías para fantasiar o que, de fato, é tão ordenado? Queria um texto onírico. Queria ouvir a música de novo. E sair daqui pra desenhar lá fora todas as teorias forjadas que inventaram pra eu viver. Fugir destas horas de 60 minutos, pra esperar que amanheça e perceber que perdi o controle. Tão bom perder o controle de tudo e despencar para o céu. Ser asas voando sem corpo, brilho sem luz. Grito de madrugada jurando amor às janelas e um brinde à calçada. E não saber quem me espera lá embaixo. Eu quero ser “o não ter tempo”. Eu quero que alguém bata a minha porta, para eu ter o gosto de dizer que abri uma exceção.
